Perrengues de Viagem: Couchsurfing em uma residência estudantil em Praga

Essa história é de um daqueles perrengues de viagem que viram o melhor caso pra se contar depois da volta. Você ri e se diverte com as reações das pessoas, mas na hora bate um leve desespero. Deixa eu começar do começo:

Recebemos duas pessoas da República Tcheca na nossa casa, em Limerick, pelo Couchsurfing (CS). A menina tinha feito a solicitação pro Lucas e estava super animada, vivia mandando mensagens antes de chegar e parecia bem simpática. Ela veio com um amigo e eles passariam uma noite com a gente.

Ela chegou com o pé machucado e acabou decidindo cancelar o restante da viagem (faltavam ainda uns 10 dias) e voltar pra Praga. Como eles remarcaram o voo e iriam embora de Limerick mesmo, oferecemos para eles ficarem mais uma noite com a gente. Eles aceitaram e aproveitaram para conhecer os Cliffs of Moher.  Ela é adepta ao LARP (live action role-playing) e simula batalhas medievais, com roupa e tudo, seguindo os costumes da época. Loucura, né? Achei interessante saber mais sobre esse mundo. Coisas que o CS nos proporciona!

O que vocês precisam saber é que ela tinha um nível meio pré intermediário de inglês, mas gostava de falar muito (mas era muito MESMO), o que acabava sendo meio cansativo. Além disso, ela é uma daquelas pessoas que te pede desculpa por tudo e acha que está incomodando a todo momento, sabe? Meio chato de lidar quando você tá recebendo alguém pelo Couchsurfing, já que você espera por pessoas mais desenvoltas  e desencanadas com essas coisas.

Como já estávamos com nossa viagem marcada para Praga, aproveitamos para pegar algumas dicas de viagem e ela ofereceu para que ficássemos na casa dela lá. Como eu falei, o nível de inglês dela não era tão bom, mas pelas conversas eu tinha entendido que ela morava em uma residência estudantil e dividia o quarto com alguém. O Lucas não pegou essa parte, então ficamos com uma dúvida, mas acabamos aceitando (tudo é válido pra economizar uns euros!).

Chegando em Praga

Depois dessa super resumida de como a nossa amiga de Praga surgiu na nossa vida, vamos pular pra nossa chegada em Praga. Ela havia me dito que iria tirar folga do trabalho no dia que chegássemos e queria nos buscar na rodoviária, mesmo eu falando que não era necessário. Nos encontramos lá e ela nos levou até a residência estudantil em que ela mora.

O ônibus parou ao lado do estádio Strahov, o maior já construído no mundo, e hoje meio “caindo aos pedaços”. Caminhamos até a residência estudantil, que consistia em um complexo com mais de dez blocos de prédios, várias quadras de esporte, alguns bares e mercadinhos, além de um restaurante pros estudantes. Fizemos nosso registro na portaria para que tivéssemos o cartão de acesso pelos próximos 3 dias e entramos no prédio.

Aí começa meu choque: quando entramos no corredor, me senti em um manicômio. Vou colocar aqui as fotos que não me deixam mentir. O corredor era muito largo e as portas do quarto pareciam celas. Acho que minha cara não estava tão boa, porque nossa anfitriã falou “não se preocupa, dentro do quarto é melhor”.

Quando ela abriu a porta do quarto, na outra ponta do corredor, fiquei em dúvida sobre o conceito dela do que era melhor. O quarto era comprido, haviam duas camas de solteiro, duas mesas, um carrinho de supermercado cheio de roupas, uma parede lotada de enfeites e coisas penduradas. Perto da porta havia ainda um armário e uma bancada com frigobar, vasilhas, comidas,chás e outras coisas. Vamos às imagens:

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Depois disso, ela nos levou para conhecer o banheiro. Entramos juntos, eu, ela e o Lucas, por um pequeno corredor. Ela nos explicou que de um lado ficava o banheiro, com mictórios e as cabines com os vasos,  e do outro os chuveiros para tomarmos banho. Foi aí que aconteceu o seguinte diálogo:

— Os banheiros são misturados, para homens e mulheres? – pergunto eu.
— É sim. [Tássia faz uma cara de pavor e amiga percebe]. Mas não preocupa não, o bom é que você vê um monte de homem gato tomando banho!

Esse lugar está cada vez melhor! Resolvi perguntar se eles tinham só um banheiro por andar e ela me contou que não, havia mais um na outra ponta do corredor. Eu, inocente, falei: “Ué, por que vocês não fazem um feminino e o outro masculino, então?”. “Nossa! Não seria nada prático… Imagina você ter que atravessar todo o corredor pra ir no banheiro?”. É, gente, acho que nós somos os únicos frescos mesmo.

Ah! E ainda faltou falar que ela havia expulsado a colega de quarto dela e mudado pro dormitório do amigo, pra nos deixar por três noites com o quarto só pra gente. A menina veio até buscar a mala dela pra levar pro lugar que ela ia dormir. Morri de vergonha!

Voltamos para o quarto e eu só conseguia pensar que teria que ficar três noites usando aquele banheiro sujo (não tinha contado isso, né?), me deparando com homens usando o mictório, tomando banho com uma cortininha no meio de pessoas desconhecidas e dormindo naquele quarto entulhado de coisas. Nossa amiga foi ao supermercado e eu e o Lucas fomos comer o almoço mais barato da nossa viagem, no restaurante estudantil. Quando chegamos lá, começamos a pensar em qual desculpa poderíamos dar para não ficarmos hospedados naquele lugar.

Gostaria de deixar claro aqui que eu não sou uma pessoa fresca. Fizemos várias viagens pela Irlanda em que dormimos no carro, passamos mais de dez dias acampando na Islândia, já ficamos em vários albergues e outros couchsurfings… Mas aquele banheiro me parecia impossível de aguentar por três noites.

O problema aqui é que a nossa amiga realmente é um doce de pessoa e ela nos considerava realmente como amigos nesse ponto da história. Não tinha jeito de sair da situação sem arriscar deixar ela magoada. E nós, mineiros, somos bem sem jeito pra essas coisas de falar diretamente assim. O que vocês fariam?

No final das contas, resolvemos ficar. E ainda bem que ficamos! Conhecemos pessoas incríveis, bebemos cerveja local, experimentamos comida feita “em casa”, tivemos várias dicas legais da cidade e aperfeiçoamos nossas habilidades no totó (ou pebolim), o jogo oficial dos bares de Praga. Tomei alguns banhos sem trauma, mas me deparei com homens usando o mictório, o que não foi muito legal. O maior problema mesmo foi usar um banheiro tão sujo, mas… faz parte.

Essa história é cheia de detalhes extras, que deixam tudo mais divertido (ou irritante, dependendo do ponto de vista), mas isso eu só consigo contar batendo um bom papo mesmo! :) Espero que vocês tenham gostado de ler mais um perrengue de viagem por aqui. Eu ainda tenho muitos outros pra contar!

Pra compensar o textão, aí vão umas fotos lindas de Praga ♡

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Tássia Rabelo

Oi! Meu nome é Tássia, tenho 25 anos e sou aquariana. Minha paixão por viajar veio cedo. Meus primeiros passos foram em uma viagem pra praia e ainda criança aprendi que dormir em uma barraca é normal, ouvir idiomas esquisitos é incrível e conhecer gente diferente é melhor ainda! Sou de Belo Horizonte e apaixonada por Minas Gerais e pelo meu Brasil, mas já morei em alguns outros lugares pelo mundo. Adoro fotografar, ler, fazer projetos manuais, cozinhar, assistir seriados, pesquisar sobre coisas aleatórias, me perder no mundo da internet e ouvir podcasts.

2 Discussion to this post

  1. Eduardo Mendes disse:

    Me amarro nas suas histórias! Sensacional

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